Matisse - Lady on the terrace (1906)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O poder da máquina - a impotência do homem

Nesta semana tivemos o dia do amigo, mais uma data para o comércio comemorar, eu sei, mas até que não é má idéia, acho que as pessoas estão precisando se doar mais. Na verdade as pessoas estão precisando aprender tantas coisas que dá até medo imaginar o que o mundo está se tornando. Mas ao mesmo tempo dá um alívio saber que um único dia é suficiente para caírem as fichas de uma vida inteira, e é quando a mudança acontece... o que isso tem a ver com o dia do amigo? NADA, por que eu não estou aqui para falar do tal dia! Estou aqui para falar de aprendizados. Ouvi, na rádio Itapema (no dia do amigo – e juro que não falo mais nisso) a crônica falada sobre acidentes de trânsito, de um cara que atropelou um motoqueiro porque dirigia completamente bêbado. Ao ser entrevistado ele debochou da estória toda, e parece que já tem passagem pela polícia por mais três atropelamentos sérios, não sei se houve morte em algum. E foi interessante ouvir as conclusões da menina que narrou a crônica porque eu e meu amado estávamos a falar sobre isso um dia antes, pois é, são aquelas coincidências da vida!

Eu falava exatamente sobre o fato de achar que o carro é a extensão do falo. Sim, é isso mesmo que eu acho. Que os homens, ao contrário das mulheres, vêem no carro muito mais que um equipamento utilitário, necessário para a locomoção. Eles entendem o carro como um grande símbolo de poder, uma parte deles, uma parte forte, capaz de matar e, melhor, capaz de não identificá-los. A máquina é o corpo que eles não podem ter, e como não podem lutar no sentido próprio da palavra, sair no soco e chute com outro homem, a luta foi, de certa forma, institucionalizada no trânsito, onde se travam verdadeiras batalhas entre os mais fortes e os mais fracos. O fraco, neste caso, é o cidadão que cumpre e respeita as leis de trânsito, que é prudente e dirige com cuidado. Ah sim, porque forte é o machão que mete o dedo no nariz, que cospe e joga lixo pra fora do carro, que fura o sinal, que buzina pra todo mundo, que xinga as mulheres, manda elas pra casa com os filhos e o fogão. Se não ultrapassar não é o cara! A sensação de impunidade que o carro cria, apesar de ser ilusória, mexe com o ego desses primatas. Imagine só como é fácil bater em outro carro, atropelar alguém, ou qualquer outra infração, por detrás de um vidro fumê! Não se pode ver quem está lá. Se o homem sai rapidamente do local, às vezes não dá nem tempo de anotar a placa, e pior, às vezes a placa é clonada! Bingo! Vira título de filme de quinta: Pegue-me se puder!

É patético, infelizmente, patético, mas é a mais pura realidade!

Na mesma semana mais uma coincidência muito triste... a morte do filho de uma atriz famosa por atropelamento, o motorista fugiu, não prestou socorro, parece que estavam fazendo racha, que másculo não? Quer coisa mais máscula que um bom pega? Ah sim, tem mulher que gosta, vai entender, o ser humano é definitivamente a criatura mais complexa do universo, o resto é fichinha! Não tenho e não preciso saber se era chegado o momento deste menino de 18 anos trocar de Plano, não importa, as infrações de trânsito não se justificam por nada neste mundo. Nem do outro!

Aos 16 anos eu fui atropelada... assunto desagradável, mas pertinente. Fiquei 5 meses deitada, sem conseguir sequer sentar, passei por muitas cirurgias, nada grave, mas tenho algumas pequenas limitações. Perdi muitas coisas naquele momento, o sofrimento foi terrível, mas eu ganhei a vida de volta, e não fiquei com nenhuma seqüela irremediável. Mas nem é esse meu assunto, quero contar do motorista que causou isso tudo. Ele dirigia bêbado, em alta velocidade, e tão logo eu rolei no chão, atirada por seu carro a muitos metros do lugar em que estava ele correu em minha direção e tentou me chutar, dizendo palavrões e profundamente frustrado por que eu havia amassado o carro dele. Não conseguiu concluir a ação porque foi impedido pelas pessoas que me acompanhavam. O que houve depois? NADA. Nunca houve nada.... não tinha naquela época o Código de Trânsito. Como a gente vê, hoje que está em vigor parece que não faz diferença! O Brasil é o país das leis mais lindas do mundo, pena que elas não saem do papel!

A sensação de impunidade em qualquer ocasião tem consequências graves, no trânsito isso fica mais claro, é mais imediato, é a selva, cada um por si e Deus por quem eu matar. Às vezes ao observar os carros, chego a ter a nítida sensação de que eles são os vilões, como aquele desenho do Pateta em que há um julgamento para os carros, alguém se lembra? Parece mesmo que eles voam, ultrapassam, debocham do que ficou pra trás, pegam as garotas de programa escondido da família e as devolvem – ou não, enfim, parece que o carro se tornou um ente, capaz de ser anônimo não importando a situação.

É esse desejo de se dar bem a qualquer custo, essa sensação de anonimato que leva muitos motoristas a fugir à responsabilidade de seus atos nas estradas, dentro de seu suporte biônico, sua cápsula de fuga da realidade, seu casulo de proteção, e por que não, seu útero mecânico!
É, as pessoas precisam se doar mais... a vida não é um jogo, embora alguns pensem que seria mais divertida se fosse. Nenhum de nós está livre de cometer uma barbeiragem e acabar ferindo outra pessoa, acontece, nós erramos, somos humanos afinal. Mas provocar isso é cruel, é insano! Já não chegou de violência? Até quando vamos ter que conviver com a barbárie para aprendermos que viver em paz é bem melhor, que dói menos? Espero que ninguém precise passar pelo que passei e tantos passam diariamente para entender o que um automóvel é capaz de destruir, ou melhor, o que o ser dentro do carro é capaz de destruir! São muitos os caminhos que podem levar à solução deste problema que envolve inúmeros fatores, e não é a velocidade que vai nos levar a qualquer um deles!




Aproveito para divulgar a campanha do Jornal Bem Estar para o trânsito: é só entrar no site e pedir o adesivo, que eles enviam pelo correio, com a seguinte frase: GENTILEZA gera amor e paz!

Um comentário:

  1. Cara, muito legal seu blog. Várias coisas do meu interesse: música, fotografia, vegetarianismo, yoga, espiritualidade...
    Convido vc a conhecer também um blog que está nascendo:
    www.eradouradaashram.blogspot.com
    E como você ficou sabendo do "Agricultura na Cidade"?
    Abraços fraternos!

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