Matisse - Lady on the terrace (1906)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O homem apenas enxerga a sombra do céu!

Este post trata de um assunto teoricamente um tanto quanto obsoleto, do ponto de vista jornalístico, em que no dia seguinte a notícia já não importa mais, no entanto, no que se refere à vida, e aos temas realmente crucias de se abordar a fim de se viver melhor, o tema é fundamental de ser discutido!
É mais um post que revela minha total perplexidade diante da euforia humana no que tange à violência. Estamos tão próximos da barbárie e, no entanto, houve comemoração!! Como assim???
A princípio pensei ter escutado mal. Decerto algum tipo de alucinação daquelas que acometem os ingênuos e sonhadores. Qual nada, era a mais desconcertante realidade.
Caso ainda não tenha sido clara, me refiro à morte de Osama Bin Laden. Mais precisamente a respeito do circo que se formou em torno deste fato.
Começo minhas reflexões com muitas perguntas e quase nenhuma resposta. Que direito têm os EUA de julgar, matar e se livrar do corpo de um ser humano da maneira como agiu? Bin Laden era diferente de qualquer outro indivíduo do ponto de vista dos seus direitos? Por que sua família não pode lhe dar um funeral digno? Por que ele não foi preso, por que não teve direito à defesa, não foi julgado dentro dos mesmos princípios de lei que supostamente regem o mundo?
Imagino que alguém a esta altura está me achando ainda mais ingênua e eu me defendo afirmando que não se trata de viver no mundo da lua mas sim de crer que todos, sem exceção, todos merecem o mesmo tratamento por parte da Justiça e do Estado, independente de suas atitudes, crenças, posições políticas ou classe social.
Isto está na lei!
E por que não aplicou-se a lei? Quem decidiu em seu nome? Homens baseados em princípios militares, em nome da aclamada segurança. E sendo assim, absolutamente propensos a cometer os mesmos erros que os ditos assassinos.
Ora, então condenar alguém a um destino cruel, à morte, à tortura, à prisão perpétua, a ser jogado no mar – caso de Osama, ou mesmo enforcado num ato bizarro - como foi com Sadan Hussein, não seria se igualar em maldade ou no mínimo em falta de sensibilidade pela vida humana, tanto quanto os réus condenados?
Quem de nós tem o direito de determinar o momento que um ser vivo deve desencarnar? Quem de nós, homens, no auge de nossa pressa em condenar, impaciência no trabalho, incoerência, intolerância no trânsito, busca desmedida por dinheiro, ausência de valores e de base familiar, desrespeito total ao próximo e extrema falta de fé, é capaz de dizer, com sabedoria o que um ou outro merecem?
Definir a hora que o outro deve pagar suas dívidas terrenas com sofrimento e humilhação? Quem de nós tem discernimento para isso?
Existem leis, pois que se cumpram!
Ainda que imperfeitas, pois demonstram a tentativa da humanidade em se ajustar aos acontecimentos. Porém a pena de morte é algo tão injustificável que não permite que se diferenciem os assassinos réus dos assassinos do outro lado da bancada, ou seja, quem é pior? O que matou ou feriu por ódio, por loucura, por revolta, ou aquele que sentado em seu gabinete, sem nenhum motivo que o valha, apenas com uma caneta mata alguém que nada lhe fez? (e neste caso não faz diferença que o indivíduo tenha cometido muitos atos criminosos, os direitos são os mesmos!)
Pos acaso a gravata lhe dá esta prerrogativa? Talvez, assim como a arma seja a prerrogativa do criminoso!
A mim tanto faz se tratar de Osama ou de Sadan, embora em momento algum de sua história tenha eu concordado com quaisquer de seus atos. Da mesma maneira não me importa se nos presídios se encontrem assaltantes, maníacos, etc. Ainda assim isto não me parece motivo para que estes indivíduos precisem tomar banho frio mesmo no inverno (e aqui no sul nós sabemos o que isto significa), não ter onde dormir, viverem amontoados feito uma colônia de formigas ou cupins, e não receberem alimentação digna. Isso sem falar nas pancadas, agressões verbais e de toda a ordem, etc.
No que isto ajuda a edificar um homem? No que isto contribui? Esta resposta eu sei: em NADA. Isso gera mais e mais revolta, ódio, desejo de vingança, e mais intolerância. E no que isso ajuda a fazer evoluir a sociedade? O que traz de benefícios para o convívio e o bem estar? NADA outra vez!
Para não ser injusta com as formigas ou cupins, estes formam uma sociedade extremamente organizada, apesar de antidemocrática em um primeiro olhar, mas todos vivem de acordo com sua natureza, cumprindo aquilo para o que foram destinados. E nós, que desenvolvemos ao longo de uma história nada simples, um amplo código moral e social, respaldado por ciências complexas e seus compêndios extensos, cujo valor parece estar mais voltado à forma que propriamente ao conteúdo. O que fizemos disso tudo? Outra vez NADA!
Mataram a palavra!

É como sinto agora, ouvindo tamanha barbárie. Me sinto tão empobrecida como ser humano, tão enfraquecida enquanto ser pertencente a uma organização social que nega em atitudes o que hipocritamente grita em teoria.
Me sinto ofendida ao ver nas ruas uma boa parcela de população a comemorar a morte, a desgraça, a humilhação de uma criatura que assim como todos nós merece o perdão, merece o esclarecimento a respeito de suas atitudes equivocadas que causaram sofrimento. A punição extrema não ajuda um rebelde a ter compaixão, nem ameniza a revolta que lhe impede de enxergar a realidade.
É certo pensar que a cada um será dado conforme a sua obra. Que talvez os seres que agem somente para o mal acabem por receber de volta boa parte desse mal. Mas não cabe a nós, homens, julgar. Não nos pertence esta decisão! Não fomos promovidos a Deuses, a menos que me tenha falhado a memória.
O que estamos fazendo com nossa liberdade de expressão? Saudando o ódio e abraçando a antiga lei “Olho por Olho, Dente por Dente”.
É a barbárie, sem dúvidas!
Voltamos à Idade Média. Talvez falte pouco para termos forcas e guilhotinas nas praças. Até falei nisso em outro post – aquele sobre o vestido e a intolerância dos estudantes.
Parece tema recorrente? Por que será? Por que nos acostumamos com a vingança, com o mito do bandido e do herói. O bom e o mau, quando na verdade somos um pouco de cada um, tão somente movidos por escolhas diferentes.
O terrorismo não acaba por que morreu um líder – mais simbólico que efetivo - assim como as ocupações “necessárias” e as guerrilhas não cessam quando ocorrem baixas, e isso por que alguém tem que lucrar com o comércio de armas, entre outras coisas. Os motivos estão muito além das alegações meramente religiosas ou simplificadamente políticas. No caso em questão, as mortes foram queima de arquivo, foram uma resposta em tom de ameaça. Muda o quê mesmo? Aumenta o índice de popularidade de um, respalda as intenções e os gastos de outro. Em suma, todos saímos perdendo em termos de diplomacia e de ética. Olha só a palavra que eu estava esperando aparecer: ÉTICA. Por onde andavas afinal??
E assim caminha a humanidade, olhando para o chão, vivendo de admirar a sombra do céu, se mantendo, desta forma tão distante de Deus!
Enquanto precisarmos de fatos deprimentes e depreciáveis como estes para sentirmos um gozo provisório ou um prazer temporário, seremos como insetos dentro de um frasco de vidro, crentes na liberdade, quando na verdade, sequer enxergamos de forma clara o que se passa do lado de fora do vidro embaçado, mas nos contentando em poder voar em círculos, sem, no entanto, sair do lugar.