Matisse - Lady on the terrace (1906)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A culpa é do vestido!!


Preferi não me manifestar durante o alvoroço para não precipitar uma opinião equivocada, afinal, às vezes no calor dos acontecimentos nosso discernimento se mistura à nossa indignação e podemos correr o risco de cometer injustiças. Mas agora, passado um certo tempo, não poderia deixar de comentar o fato do vestido que causou tamanha polêmica, se é que alguém ainda lembra, afinal, infelizmente alguns casos absurdos se tornam banais na outra semana...vamos então aos comentários:
Voltamos à era da intolerância - a idade das trevas. Voltamos a queimar as bruxas em praça pública! Voltamos a fazer fila para cuspir, bater e jogar pedras nas supostas prostitutas e infiéis! Voltamos a nos acotovelarmos aos montes para assistirmos os enforcamentos e os pescoços rolando pela guilhotina! Voltamos?? Será mesmo que em algum momento da história nós deixamos de ser assim? Ah, esqueci, o vestido era rosa-choque, curto e colado - coisa de mulher vulgar. Claro, ela merecia ser humilhada, execrada, julgada e expulsa da universidade (com letra minúscula mesmo). Onde já se viu, atentar desta maneira contra a moral e os bons costumes?? Quantas vidas se destruíram em nome da moral! Quantas mais se destruirão?
Esqueceram de ler, mais abaixo nas letrinhas pequenas, que moralidade é respeitar as escolhas, o comportamento e o gosto do outro. Esqueceram, ou talvez não saibam, que tudo aquilo que incomoda demais pode ser desejo reprimido, caso dos homofóbicos, por exemplo. Neste caso, quantas das meninas que esbravejaram contra a "moça do vestido" deviam estar sentindo uma enorme vontade de esquecer por um momento que a mulher precisa estudar para provar que é bem mais que um corpo, e subir 2 centímetros a barra da saia, para poder mostrar sem culpa as pernas? É, ser mulher assim não é fácil! Para ser feliz sendo mulher é preciso crer, de verdade, que a beleza não é, de fato, o mais importante. Portanto, fingir acreditar nisso quando se tem um ego enorme, prestes a se soltar no mundo e competir descaradamente com as outras mulheres, é, no mínimo, falta de auto-conhecimento.
Com relação aos meninos, quantos que a espezinharam, não estavam com uma louca vontade de agarrá-la, usá-la, e de provar o quanto são machões. Meninos e meninas, ambos machistas e hipócritas. A hipocrisia, por sua vez, esconde o preconceito, a perversidade e a arrogância em personalidades falsamente puritanas, super moralistas e absurdamente antiquadas.
Não concordar com o jeito, as manias a forma de se expressar ou a opinião de alguém é normal, aliás, é saudável, nos ajuda a refletirmos, a pensarmos, fazermos análises através da observação do mundo a nossa volta. Mas é de bom tom parar por aí! Quando nos sentimos os donos da verdade, ultrapassamos os limites dos Direitos Humanos em nome de defender nossa posição, nos igualamos aos carrascos degoladores, nos igualamos aos fanáticos da Ku Klux Klan, aos soldados nazistas, cegos em seguir um comando, ou aos fascistas intolerantes, cegos à realidade, todos mergulhados em seu próprio mundo, ditadores e autoritários, prontos para julgar e condenar o que não couber em sua mente pequena e sem espaço para o afeto, o que não couber em sua idéia destorcida de perfeição.
Este acontecimento me trouxe mais uma preocupação: que tipo de 'universidades' estão sendo criadas neste país? Hoje em dia, qualquer um pode abrir um curso que o Mec logo reconhece. E cursos à distância, graduação de 2 anos pipocam em todo o Brasil. Este tipo de estabelecimento, no entanto, não está apto, ao que me parece, a formar seres humanos, a formar gente pensante, capaz de tomar decisões baseadas no respeito e na construção de uma sociedade mais justa. Ao contrário, estas 'universidades' de esquina deformam, estimulam a competitividade acima de tudo, carimbam diplomas vazios, unicamente tecnocratas, lotam o ridículo mercado de trabalho (abomino este mercado, um ente invisível que manda no mundo) de gente com comportamento de manada, reagindo apenas aos seus instintos mais primitivos, como a auto-defesa, ou seja, quase sempre o ataque. Gente que entende da sua tarefa mas não entende da vida, não entende de gente, tampouco de si mesmo.
Quem não gosta de roupa curta que não use! Eu não gosto, então não uso e pronto. Não tenho nada a ver com quem está a fim de mostrar o corpo, seu corpo, não o meu. Simplesmente não me incomoda. Incomoda você? Incomodou dezenas de estudantes. Por que???


Foto: google imagens

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Discursos Espirituais - Evolução em Direção à Perfeição III


A escuridão da noite evolutiva começou a se dissipar séculos atrás, quando a primeira criatura, semelhante ao macaco, abandonou seu reinado de galhos e começou a vagar sob a luz das planícies. Ele era guiado por algo que não podia compreender: algo que não fazia parte de sua natureza símia, algo inacessível aos seus camaradas. De alguma forma, em alguma parte da sua borbulhante química corporal, algo mudou. No seu cérebro foi lançada a semente de humanidade; em seus olhos, estranhamente brilhantes, surgiu a sombra de sonho oculto. O tempo passou lentamente. As novas criaturas se desenvolveram e multiplicaram-se. As maravilhosas mudanças em seus corpos e mente continuaram; seus cérebros, nervos e sistemas glandulares aumentaram em complexidade e especialização. Novos padrões de comportamento desenvolveram-se e, após algum tempo, emoções e sentimentos desconhecidos e negados a todas as formas prévias de vida encontraram seus meios de expressão. A alvorada da humanidade foi alcançada naquela hora auspiciosa. As ondas de pensamento, geradas por aquela primeira expressão humana, estão vibrando até hoje na mente inconsciente de cada ser humano. Cada um de nós carrega, dentro de si, a lembrança oculta daquela primeira alvorada, e até antes dela, dentro da escuridão da antiguidade. Nós estamos, por meio desta memória primordial, que faz parte da nossa herança humana, intimamente conectados a todas as formas de vida.

(Supreme Expression I - Shrii Shrii Ánandamúrti)


Foto: Berçário de estrelas - Nasa