Matisse - Lady on the terrace (1906)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Eu, Casulo


Problemas...quem não os tem? São consequências de se viver esta vida que é um grande aprendizado. Claro que alguns são bem piores que outros e, claro, algumas pessoas têm bem menos problemas que outras, mas também são consequência de comprometimentos de outras vidas e de certas atitudes dessa, enfim, coisas nas quais eu creio, e entendo que nem todos crêem, normal.
Retomando o tema, os problemas servem para que possamos nos conhecer, eles podem ser tão grandes quanto queiramos que eles sejam, ou bem pequenos, caso não nos interessemos por eles. Não importa a forma, o tamanho, o estrago...sempre mexem de alguma forma em nosso mundinho tão impecavelmente estruturado sobre a areia. Basta um ventinho e pronto, vai tudo abaixo. Nós corremos para levantar outra parede até vir outro vento e levar tudo embora outra vez, e outra e mais uma...ad eternum...será?

Parece que sim, mas também parece que depende de como cada pessoa reage, como eu disse antes, depende de como cada um quer que seja. Algumas pessoas reagem fugindo, negando, escondendo tudo para dentro de algum armário trancado a chave, ou numa mala bem velha e com cheiro de mofo. Mas é ilusão, uma hora a mala ou o armário vão ficar cheios e tudo que estava lá escondido vai ter que sair para algum outro lugar. Daí resultam diversos problemas de saúde que podem ser amenos ou graves (câncer, avc, infartos). Imaginem um copo que vai sendo cheio até que transborda...pois então, mais ou menos isso.

Têm ainda aquelas pessoas que fazem drama de tudo, que gritam, tendem a exagerar, andam soltando farpas e faíscas para todo o lado, como se todos fossem culpados por seus problemas, ou por não solucioná-los, uma vez que estas parecem não conseguir fazê-lo. Não sei se por falta de saber lidar com a situação de conflito, ou se por que uma vez resolvida a contenda, elas não terão mais nada do que se queixar e a vida sem queixas e resmungos parece não ter lá muita graça. Quem não conhece alguém assim...Freud explica.

Têm também os mais práticos, como o meu marido fofo, que eu admiro tanto e invejo neste sentido...sabem que têm problemas, discutem, avaliam, estão dispostos a resolver, mas uma vez sendo impossível, esquecem e se voltam para coisas mais importantes. No caso de o problema ter solução, eles partem para ela e voalá...como quem trocou de roupa se livram de qualquer resquício que pudesse lembrar a situação ruim. Parece que no passo seguinte já superaram tudo, e se não os conhecêssemos, iríamos jurar que nada aconteceu, por que são de uma discrição!

Para que divulgar problemas afinal? Guardam o aprendizado, refletem sobre ele, mas não se abalam emocionalmente, ao invés disso seguem adiante, confiantes de terem feito seu melhor. Me lembram aquele ensinamento de Buda: “Se você pode resolver um problema, para que então se preocupar com ele? E se você não pode resolvê-lo, para que se preocupar com ele então?” Mais ou menos assim de novo...

Adoraria me lembrar e seguir este ensinamento em caso de emergência! Mas, e sempre tem um mas, eu sou aquele outro tipo de pessoa...(para quem pensou que eu não me incluiria)...o tipo borboleta. Ninguém entendeu. Não quis dizer que sou o tipo fofinha e colorida...ah, quem me dera, mas como todo o ser humano, e talvez bem mais que alguns, tenho meus dias sombrios e nublados. O que eu realmente quis dizer, é que enquanto alguns simplesmente escondem, outros se desesperam e outros superam sem maiores dificuldades, os borboletas precisam de um tempo razoável para digerir a nova situação.

Eu, por exemplo, enquanto não compreendo por completo o que está acontecendo me fecho para o mundo e me volto para mim, somente para mim. Não consigo manter a mente desligada do problema e nem fazer outra coisa que não seja vivê-lo, até esgotá-lo em todas as suas possibilidades. Não funciono para quase nada, não consigo me dedicar, tampouco resolver quaisquer outras situações que se apresentem. Apenas me volto ao problema e para mim. Divido apenas com os muito amigos e sem perder o bom senso, ainda que esteja arrasada. A partir daí, passo a me reavaliar, a me reorganizar, a me quebrar, peça por peça, incansavelmente, por que cada dor e dificuldade me aniquilam um pedaço e isso faz com que eu precise derrubar o que restou de mim. Às vezes derrubo aos poucos, às vezes abruptamente, sem poder me impedir, mergulhando no meu lugar mais escuro e escondido, retirando de lá todas as minhas fantasias obscuras, as sujeiras, as inconvenientes verdades que de tão afirmadas acabam por se pregar em um canto feio e se recusam a sair, ou a se reformular.

Eu mergulho aos meus infernos, e não pensem que é fácil...não, não é...mas é inevitável. E lá eu me julgo, me condeno, me aceito, me odeio e volto a me amar e fazer as pazes comigo. É neste resgate interno e solitário que eu grito silenciosamente. Como disse, falo com os amigos apenas uma parte do que realmente estou sentindo. Isso caso eu fale. Geralmente, dependendo do caso, nem mesmo comento. É chato um amigo que tem problemas demais não acham? As pessoas se afastam de quem reclama o tempo todo. Por isso é bom ter a medida certa entre pedir ajuda quando não há saída e correr mundo se queixando da sorte. E assim, sozinha com meus botões eu vou aos pouquinhos me refazendo, remontando os cacos, um a um, até ter forças novamente de sair de dentro de mim e romper o casulo.

Passada esta etapa, entre resgates e aprendizados, estou pronta para ver o mundo, completamente nova, outra pessoa nascida da redoma mórbida, porém tão necessária. Um outro ser, sóbrio e amadurecido com esta dor, não com as outras, por favor, uma de cada vez! Assim, uma crise me salva, embora pareça estar me matando, me ajuda! Como tantas desgraças que assolam a humanidade, mas que ensinam a compaixão, pois bem, nada é à toa. Agradeço tanto a Deus cada uma das minhas “crises existenciais” e cada um dos meus problemas. Eles me permitiram aprender o mais importante: quem eu sou. No mais, há tanto a ser desvendado e tão pouco é nosso tempo aqui...

Abrindo um parêntese: definitivamente o auto-conhecimento é a chave para tudo, para o primeiro passo em direção ao Dharma de cada um, que é a natureza de cada um de nós, nosso caminho no universo. Hoje eu creio que tudo que me ocorreu e a forma com que Deus, ou Brahma, sempre me ajudou a superar é muito Tântrica. Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, Tantra literalmente significa “aquilo que liberta da escuridão”. Espiritualmente falando, Tantra é um esforço para desvendar o elo místico entre o finito e o infinito, entre indivíduo e Cosmo. É uma ciência para ser aprendida e praticada, bastante profunda, maravilhosa, que merece bem mais que estas poucas palavras.

Mas eu falava sobre meu novo nascimento, sim, é como eu me sinto, nascendo em um novo momento, pronta para enfrentar o que me impede o caminhar, segura para prosseguir e escalar o muro que me tranca a passagem. Eu demoro, entro em guerra, me parto ao meio, mas finalmente me liberto, como se tivesse tirado muitos e muitos quilos de cima de meus ombros, um peso opressor e insuportável, mas que de repente eu percebo que é quase nada, uma bobagem...

Assim a vida nos leva, por caminhos distintos, uns tortuosos, uns somente belos, cada qual aprendendo aquilo que precisa aprender, recebendo as lições que precisa receber, e aceitando-as, ou não de um jeito bastante particular. Não convém julgar se de um jeito é melhor, se é mais fácil...isso não faz a menor diferença. Importa que a seu tempo e de seu jeito, todos nós iremos receber do universo o que é justo e merecido, seja de ontem, hoje, agora. Vale lembrar que a dor e as dificuldades não devem ser encaradas como um fim, mas um recomeço, como um passo depois de outro passo, e mais um...todos nós já fomos ou somos casulo em algum momento, que bom, significa que estamos criando asas afinal...

Rashmi.
*fotografia Olga Gouveia