Matisse - Lady on the terrace (1906)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Beijo e o Sagrado

Não gostaria de falar do beijo apenas por que hoje é o dia do beijo, assim de maneira simplista, como fosse um assunto qualquer, daqueles que não merecem maiores considerações. Ao contrário, esse assunto rende um tanto, por isso quero falar tudo o que penso, só para variar. Para nós encarnados existe a necessidade do corpo feito de matéria, ideal para a vivência aqui na Terra. Por este motivo, a meu ver, o corpo é algo sagrado por ser ele a casa do espírito. E sendo assim, tudo que se refere a ele deve ser também sagrado do mesmo modo. A comida saudável – e por isso ser vegetariana, a bebida saudável, hábitos saudáveis, e por que não, sexo saudável. O que seria sexo saudável? A meu ver é aquele que se faz com quem se ama, em uma troca intensa de energias positivas, com o pensamento elevado de modo que ao final, a sensação de paz e felicidade seja completa.

Minha ideia não é falar sobre sexo, mas sim de tudo que envolve as relações humanas, e eis que surge a questão com o tal dia do beijo então aproveito para tocar no assunto a fim de recompor meu raciocínio. Continuando... muitas pessoas entendem o sexo, o beijo e o toque como algo banalizado. Se faz sem pensar e ponto, simplesmente por que todo mundo faz, ninguém tem nada a ver com isso. Casais que se conheceram ontem já dizem te amo, assim, sem mais. Aqui também se incluem aqueles que costumam dividir a intimidade na rua, se agarrando voluptuosamente para quem queira ver.

Outros por uma questão religiosa abominam a ideia ou se sentem culpados por terem desejos. Alguns são absolutamente fechados ao toque, não abraçam nem os familiares. Há os pais que nunca beijam seus filhos, que por sua vez jamais beijarão os seus e assim sucessivamente em uma teia de desafetos, sendo perpetuada por gerações.

Detesto fazer julgamentos porém não posso ficar em cima do muro, então ouso dizer que ambas visões são limitadas e equivocadas.

Amor é para ser dado, doado, entregue, e seja lá mais o que e como tenha de ser. Mas é preciso envolvimento e responsabilidade. Não amamos de um dia para o outro. Quem diz que o faz provavelmente não se conhece, tampouco ao amor. As entregas sem sentimentos geram energias perturbadas, desgaste psíquico e espiritual e quase sempre nos trazem dores de cabeça.

Por outro lado, o medo de amar e de se entregar a um sentimento ou relação gera frustrações, neuroses, e igualmente, complicações. Sem perceber a pessoa vai se tornando amarga, mesquinha, invejosa em ver a felicidade alheia.

Nem 8 nem 80 – o caminho do meio é sempre o ideal. Em esferas mais elevadas, onde os seres não necessitam de um corpo material pois se encontram em um patamar mais evoluído, não existem problemas desta ordem. No entanto, aqui na Terra a única forma que encontramos de nos relacionar foi através do toque, da carne. Eu costumo brincar dizendo que o ser humano só sabe viver se for amando a tudo visceralmente, e faz um certo sentido.

Somos trazidos ao mundo dentro do ventre de nossas mães, ligados a ela literalmente por laços de sangue. Nascemos nele e dele. Este corpo precisa sentir, tocar, beijar, amar. Só assim, com o contato físico é que realizamos e vivenciamos nossas emoções. Conseguimos, desta forma, levar os estímulos ao cérebro que processa essas emoções e nos dá a sensação química de felicidade. E é claro que felicidade vicia. É por isso que faz bem beijar e abraçar, ou mesmo segurar as mãos de quem se gosta.

Mas nem só de química vive o homem. Sem equilíbrio, bom senso e maturidade podemos não perceber quando um grande momento acontece, enquanto permanecemos buscando a felicidade em relacionamentos fugazes e vazios, que não nos acrescentam de bom para a vida.

Como disse antes, nem 8 nem 80. Não devemos esquecer que é a mente quem controla o corpo e não o contrário. Não devemos ser escravos de nossos desejos. Tudo que é demais faz mal ao corpo e ao espírito. Saber se relacionar de forma saudável, se respeitando e respeitando o outro, respeitando seus limites e os do outro é fundamental. E definitivamente, expor a intimidade não é ideal porque a nossa liberdade acaba quando começa a do nosso próximo.

Quanto à falta de afeto, de envolvimento e mesmo a abstinência sexual parcial ou total forçada, creio que o ideal é entender que estamos sujeitos a sofrer a cada passo dado, não há fórmulas nem ensinamentos que nos livrem de decepções. O equilíbrio na hora de se relacionar nos ajuda um bocado.

Não é justo atribuir ao outro a culpa por nossa impossibilidade de entender o sentir, o sofrer e o se relacionar. Estamos aqui para aprender, sempre, até que cheguemos no mais alto grau evolutivo. Pouco provável que seja na Terra, mas é um caminho por onde precisamos passar e o corpo é parte primordial desse processo.

Quanta discussão por conta de um beijo...

Não sei quem inventou este dia, ou por qual propósito. Quisera eu que não tivesse apenas um motivo comercial por trás, e sim que pudesse ser um dia para que exercitássemos o beijo no sentido sagrado, como o abraço. Um dia para se comemorar o afeto, o bem querer, o carinho. Apenas o que há de bom de mundo, e graças a Deus há um tanto de coisa boa no mundo.

Temos muito que comemorar!




imagem: google - não encontrei a autoria, quem souber avise por favor!

sábado, 9 de abril de 2011

IML - Imperceptível Miséria Lamentável

Nesta última sexta vi em um telejornal mais uma daquelas notícias bem cabeludas, difíceis de se esquecer. Seria bem cômica se não fosse bem trágica. É a respeito da situação periclitante do IML de Fortaleza. As imagens são absurdas. Os corpos estão amontoados, esperando por perícia, em macas, caixões de metal, alguns vestidos, alguns nus, alguns com a roupa íntima bagunçada, talvez em função de serem movidos, enfim, o caos.

Ao lado deles é possível ver facas (tipo de açougueiro), serras (tipo as usadas em casa mesmo quando se pretende consertar um cano), ou seja, nada que lembre, ainda que de longe, o material adequado para se fazer necropsia em um ser humano, independente de estar morto ou não. E não digo isto em tom irônico. Somos humanos mesmo quando desencarnamos e, portanto, merecemos respeito!

O lugar está pedindo socorro, as salas estão sujas, paredes com reboco caindo, entre outros problemas. Em se tratando dos vivos, trabalhar neste lugar também está terrível. Tornou-se perigoso à saúde permanecer ali, porque há o risco de se contrair meningite, hiv, e uma série de complicações causadas por bactérias.

Mas o pior está por vir: há corpos do lado de fora - não do lado de fora da sala como alguns possam pensar, e sim na rua mesmo! No pátio! São os corpos que estavam congelados e precisam ser “descongelados” sob o sol, com grandes chapas de metal em cima para aquecerem mais rápido, de modo que se possa efetuar a autópsia. A vizinhança é obrigada a conviver com o odor dos corpos já em estado de putrefação e com as imagens dantescas, uma vez que o pátio do IML não parece ser isolado com muros. É a cara do Brasil! Brasileiro sofre até depois de morto – e não é piada!

O registro das imagens foi feito em janeiro deste ano, mas segundo o sindicato dos policiais civis até agora nada mudou. A explicação é a seguinte: o local filmado é onde funciona (???) o Sistema de Verificação de Óbitos em Fortaleza, órgão responsável em verificar os corpos de pessoas que tiveram morte natural, porém o IML está em obras e as autópsias necessárias para casos de morte por meio de violência também estão sendo feitas no tal sistema de verificação de óbitos, ou seja, o que já era precário ficou ainda pior! O perito geral do IML alega que a perícia Forense segue funcionando normalmente e que, sendo assim, para ele houve apenas um caso de super lotação. Simples não é mesmo? É um homem prático ele. Admirável! Seria um caso de super lotação se a mãe dele estivesse lá? Duvido.

O Ministério Público já está a par da situação e, portanto, tomando providências. Resta-nos saber até quando isso irá continuar acontecendo. Estar em obras eu compreendo, imagino que seja difícil organizar um lugar quando se está fazendo reformas, mas nada justifica o ocorrido. Não se tratam de materiais que podemos trocar de sala ou jogar na rua, mas sim de corpos de pessoas que têm família, que têm outras pessoas esperando por notícias, sofrendo, chorando, desejando ter seu ente querido para um funeral, uma última prece, uma despedida digna!

Não se respeita o nascimento por aqui. As mulheres são mal tratadas no SUS(TO), desde o pré-natal, até o parto. Não há respeito. Não há vagas nos hospitais. Quantas ganham seus filhos dentro de táxis, ou mesmo no saguão por falta de leito. Quarto privativo e marido que possa assistir o parto são fantasia ou coisa de quem pode pagar(como tudo por aqui). Mas isso já é assunto para outro post. Apenas falo sobre isso por que se não há respeito ao nascimento como vai haver respeito à morte?? ‘Já foi, já era, tanto faz, antes ele do que eu’...tudo piada, tudo muito engraçado, pra bobo rir!

Eu aqui, até agora tentando achar graça para ver se consigo uma risadinha também, uma risada pelos impostos que pago e que não vejo utilidade alguma para tanto dinheiro arrecadado, uma risada pelas eleições e pelas promessas por saúde e amparo à sociedade, uma risada pelas ‘autoridades’ (i)responsáveis neste caso, uma risada pelo perito e sua percepção metálica, uma risada para não chorar diante de tamanha desconsideração por este povo já sofrido, mas não deu!


Está decretado, não se pode morrer em Fortaleza!



imagem: O Grito - Edvard Munch - Noruega - obra revelação do Expressionismo

Vídeo Fonte: http://noticias.r7.com/videos/imagens-mostram-o-descaso-das-autoridades-no-iml-de-fortaleza-ce-/idmedia/eef3df37aaaf936a402513b19e45e92d.html

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quando a palavra nasce

E o mês das mulheres passou. Desejei muitíssimo postar um texto em homenagem às mulheres que admiro, mas na impossibilidade de organizar um texto como eu gostaria preferi deixar para um momento em que o tempo não se fizesse carrasco. A escolhida para este post foi a americana Emily Dickinson (1830-1886), bastante conhecida por poetas brasileiros como Manuel Bandeira, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Paulo Henriques Britto, entre outros, que já traduziram alguns de seus poemas por aqui. Era natural de Amherst, Massachusetts, onde viveu toda sua vida. Sua família tinha recursos. O pai, Edward Dickinson era advogado, e a mãe, Emily Norcross Dickinson era poeta. Por conta disso ela recebeu a melhor educação possível em sua época, em se tratando de uma mulher. Cursou a Amherst Academy, fundada por seu avô Samuel Fowler Dickinson, e depois o seminário Mount Holyoke Female Seminary, South Hadley, no mesmo Estado, mas ao se recusar declarar sua fé publicamente, o abandonou. Consta que nunca casou-se, no entanto foi apaixonada por um ministro religioso chamado Charles Wadsworth, que era casado, e para quem escreveu inúmeros poemas de amor. Quando ele foi embora para a Califórnia ela teria passado por uma grande crise emocional e escrito ainda mais, um total de 66 poemas neste período. Iniciou seus escritos por volta dos vinte anos. Ganhou fama de excêntrica, estranha, porque quando tinha cerca de 30 anos teria se encerrado na casa dos pais de onde nunca saía, retirando-se quando chegavam visitas, além de apenas usar roupas brancas, como costumava ser vista andando pela casa e pelo jardim, completamente avessa ao contato social, vivendo a escrita e a leitura intensamente. Não poderia ser diferente. Suas idéias e convicções iam contra uma série de preceitos, sem os quais uma mulher jamais poderia viver.

A forma como mais se soube a seu respeito foi através de suas cartas. Escrevia muitas. Provavelmente esse foi o jeito que encontrou de fazer parte do mundo, uma vez que, tal como era, não lhe era permitido fazer. Trocava muitas cartas com amigos seus, como Susan Dickinson, sua cunhada e vizinha; colegas de escola; familiares e alguns intelectuais como Samuel Bowles e T. W. Higginson, entre outros, o que certamente não era visto com bons olhos. Imaginem uma mulher naquele tempo conhecer, ser amiga e se corresponder com homens, sendo alguns casados. Ela afirmava que seus amigos eram propriedade sua e que eram fundamentais para a sua produção artística.

Apenas sete de seus poemas foram publicados enquanto viveu, no entanto, o número aproximado seria algo em torno de 1800. Todos escritos na clausura. Outro traço marcante em sua escrita era a linguagem inovadora, formas originais de expressão, incluindo pontuação particular, com uso de travessões, diferenciando-a dos poetas de sua época, e segundo alguns analistas, era sua maneira de marcar o ritmo.

Morreu no dia 15 de maio em Amherst, sua cidade natal, de onde nunca se afastou. Próximo de sua morte, teria pedido que sua obra fosse queimada, contudo sua irmã contrariou seu desejo póstumo. Lavínia Dickinson publicou uma antologia com o título Poems by Emily Dickinson que teve grande êxito e foi reeditada repetidas vezes.

Após sessenta anos uma nova coletânea com mais de 1.700 poemas foi editada por Thomas Johnson. Ao tomar conhecimento de sua obra, a crítica passou a ver nela uma das mais puras vozes líricas em língua inglesa do século XIX. Depois foi publicada sua correspondência e uma edição completa de suas poesias, mantendo a pontuação e o estilo tipográfico originais.

Ainda não encontrei o tempo adequado para pesquisar mais a fundo a vida de Emily, mas é dito que sua poesia é perene, e a mim é assim que parece.

"A primitiva simplicidade de suas estrofes se equilibra com audaciosa complexidade sintática e rítmica, além de flexibilidade no uso das rimas. Seus temas incluem as questões essenciais e existenciais do ser humano..." (Andre C. S. Masini - site Casa da Cultura)

De acordo com o que li, os editores costumam separar seus poemas por temas como Vida, Amor, Natureza, Morte, Tempo e Eternidade. Sua obra foi publicada somente depois de sua morte – novidade hein? – em 1890, 1891 e 1896, e apenas em 1955 foi lançada uma edição de sua poesia completa. O site American Poems tem cerca de 1775 textos disponíveis na rede, é só saber traduzir e ter uma ótima tarde.

Eu que estou com meu inglês meio capengando devido à ferrugem, prefiro ler os traduzidos, e para não dar a falsa impressão de egoísmo, dividirei com todos o primeiro poema dela que eu li e que me arrebatou. Daquele momento em diante jamais seria capaz de esquecê-la:



Uma palavra morre

ao ser pronunciada

(é o que se diz)


(flor que se cumpre

sem pergunta)


digo que é nesse

exato dia

que ela começa

a viver



(Alguns Poemas. Ed. Iluminuras. 2006)



Há outra versão deste poema que eu achei em um site, mais resumida, porém igualmente linda. Também deste site eu peguei outra linda para compartilharmos:



249


Noites Loucas — Noites Loucas!

Estivesse eu contigo

Noites Loucas seriam

Nosso luxuoso abrigo!


Para Coração em porto —

Ventos — são coisas fúteis —

Bússolas — dispensáveis —

Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —


Ah, o Mar!

Quem dera — esta Noite — em Ti

Ancorar!


(Tradução: Paulo Henriques Britto)




vale conferir:








imagem: google

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Série Crônicas – No ônibus tudo pode acontecer (1)

A Bermuda


O ônibus não estava muito cheio. Ela ouvia Elvis no mp3. Feliz por estar sentada, o que já era algo bem promissor em um pinga de Viamão. Mas não era tão promissor quanto o menino sentado mais à frente. Conforme as pessoas iam descendo sua visão ia captando melhor aquela bela imagem. Ouvindo fone também, jeito tranquilo, bem bonitinho mesmo. Ela seguiu com suas músicas, a viagem seguiu em frente... lá pelas tantas ele se levantou. ‘Vou vê-lo melhor’, pensou ela. Ah que decepção! Ao se aproximar, pode observar a bermuda de tactel que ele usava. Definitivamente era algo que não fazia parte do que considerava, digamos assim, atraente em alguém. Na verdade não fazia parte de nada. Aquela peça pavorosa não se encaixava com nada mais do que era usado por ele. Era uma bermuda E.T. Totalmente fora de propósito. Foi um balde de água fria na sua manhã que pouco antes tinha cara de novidade. Aquela ‘coisa’ era de um mal gosto insuperável e impossível de se deixar passar em branco. Em branco ficou ela. Poxa, ele era mesmo bonitinho, mas o visual não rolou. A porta do ônibus se abriu, ele deu uma olhada básica. Normal, os homens jamais se privam de olhar. Ela fez cara de quem não entendeu nada, tipo: eu te conheço? Ele não se abalou, é claro. Para todos os efeitos, também apenas observava os demais passageiros. Ela aumentou o volume do seu player, ‘prefiro o Elvis’, pensou consigo. ‘Elvis é tudo, e de quebra, jamais o vi usando bermudas. De tactel então, nem se comenta!’



imagens: google imagens