Matisse - Lady on the terrace (1906)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quando a palavra nasce

E o mês das mulheres passou. Desejei muitíssimo postar um texto em homenagem às mulheres que admiro, mas na impossibilidade de organizar um texto como eu gostaria preferi deixar para um momento em que o tempo não se fizesse carrasco. A escolhida para este post foi a americana Emily Dickinson (1830-1886), bastante conhecida por poetas brasileiros como Manuel Bandeira, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Paulo Henriques Britto, entre outros, que já traduziram alguns de seus poemas por aqui. Era natural de Amherst, Massachusetts, onde viveu toda sua vida. Sua família tinha recursos. O pai, Edward Dickinson era advogado, e a mãe, Emily Norcross Dickinson era poeta. Por conta disso ela recebeu a melhor educação possível em sua época, em se tratando de uma mulher. Cursou a Amherst Academy, fundada por seu avô Samuel Fowler Dickinson, e depois o seminário Mount Holyoke Female Seminary, South Hadley, no mesmo Estado, mas ao se recusar declarar sua fé publicamente, o abandonou. Consta que nunca casou-se, no entanto foi apaixonada por um ministro religioso chamado Charles Wadsworth, que era casado, e para quem escreveu inúmeros poemas de amor. Quando ele foi embora para a Califórnia ela teria passado por uma grande crise emocional e escrito ainda mais, um total de 66 poemas neste período. Iniciou seus escritos por volta dos vinte anos. Ganhou fama de excêntrica, estranha, porque quando tinha cerca de 30 anos teria se encerrado na casa dos pais de onde nunca saía, retirando-se quando chegavam visitas, além de apenas usar roupas brancas, como costumava ser vista andando pela casa e pelo jardim, completamente avessa ao contato social, vivendo a escrita e a leitura intensamente. Não poderia ser diferente. Suas idéias e convicções iam contra uma série de preceitos, sem os quais uma mulher jamais poderia viver.

A forma como mais se soube a seu respeito foi através de suas cartas. Escrevia muitas. Provavelmente esse foi o jeito que encontrou de fazer parte do mundo, uma vez que, tal como era, não lhe era permitido fazer. Trocava muitas cartas com amigos seus, como Susan Dickinson, sua cunhada e vizinha; colegas de escola; familiares e alguns intelectuais como Samuel Bowles e T. W. Higginson, entre outros, o que certamente não era visto com bons olhos. Imaginem uma mulher naquele tempo conhecer, ser amiga e se corresponder com homens, sendo alguns casados. Ela afirmava que seus amigos eram propriedade sua e que eram fundamentais para a sua produção artística.

Apenas sete de seus poemas foram publicados enquanto viveu, no entanto, o número aproximado seria algo em torno de 1800. Todos escritos na clausura. Outro traço marcante em sua escrita era a linguagem inovadora, formas originais de expressão, incluindo pontuação particular, com uso de travessões, diferenciando-a dos poetas de sua época, e segundo alguns analistas, era sua maneira de marcar o ritmo.

Morreu no dia 15 de maio em Amherst, sua cidade natal, de onde nunca se afastou. Próximo de sua morte, teria pedido que sua obra fosse queimada, contudo sua irmã contrariou seu desejo póstumo. Lavínia Dickinson publicou uma antologia com o título Poems by Emily Dickinson que teve grande êxito e foi reeditada repetidas vezes.

Após sessenta anos uma nova coletânea com mais de 1.700 poemas foi editada por Thomas Johnson. Ao tomar conhecimento de sua obra, a crítica passou a ver nela uma das mais puras vozes líricas em língua inglesa do século XIX. Depois foi publicada sua correspondência e uma edição completa de suas poesias, mantendo a pontuação e o estilo tipográfico originais.

Ainda não encontrei o tempo adequado para pesquisar mais a fundo a vida de Emily, mas é dito que sua poesia é perene, e a mim é assim que parece.

"A primitiva simplicidade de suas estrofes se equilibra com audaciosa complexidade sintática e rítmica, além de flexibilidade no uso das rimas. Seus temas incluem as questões essenciais e existenciais do ser humano..." (Andre C. S. Masini - site Casa da Cultura)

De acordo com o que li, os editores costumam separar seus poemas por temas como Vida, Amor, Natureza, Morte, Tempo e Eternidade. Sua obra foi publicada somente depois de sua morte – novidade hein? – em 1890, 1891 e 1896, e apenas em 1955 foi lançada uma edição de sua poesia completa. O site American Poems tem cerca de 1775 textos disponíveis na rede, é só saber traduzir e ter uma ótima tarde.

Eu que estou com meu inglês meio capengando devido à ferrugem, prefiro ler os traduzidos, e para não dar a falsa impressão de egoísmo, dividirei com todos o primeiro poema dela que eu li e que me arrebatou. Daquele momento em diante jamais seria capaz de esquecê-la:



Uma palavra morre

ao ser pronunciada

(é o que se diz)


(flor que se cumpre

sem pergunta)


digo que é nesse

exato dia

que ela começa

a viver



(Alguns Poemas. Ed. Iluminuras. 2006)



Há outra versão deste poema que eu achei em um site, mais resumida, porém igualmente linda. Também deste site eu peguei outra linda para compartilharmos:



249


Noites Loucas — Noites Loucas!

Estivesse eu contigo

Noites Loucas seriam

Nosso luxuoso abrigo!


Para Coração em porto —

Ventos — são coisas fúteis —

Bússolas — dispensáveis —

Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —


Ah, o Mar!

Quem dera — esta Noite — em Ti

Ancorar!


(Tradução: Paulo Henriques Britto)




vale conferir:








imagem: google

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