Matisse - Lady on the terrace (1906)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Afinal, a vida é bela!



Estava eu a passear por um blog, que eu adoro -www.corposolto.blogspot.com - e li sobre as pessoas que reclamam...tão interessante ver um pouco de mim ali no texto...é, eu reclamo bastante rsrsrs.

Mas depois pensei um pouco mais: ops, eu sou mais feliz do que eu achava que era!! Por quê??? Acabei de me lembrar que eu consigo ser feliz no ônibus!!! Pois então, não disse?
Muitas coisas têm sido bem difíceis sim, esta vida não está para brincadeiras. Ela nos dá voltas e empurra a gente pra cá e pra lá até que acabamos amadurecendo assim, um pouco na marra, mas sempre tão necessariamente...

Eu reclamo, brigo, fico chateadíssima com as coisas do mundo, do meu Brasil, com as injustiças, e me dói até hoje e sempre, passar na rua e ver crianças ou mães com crianças ali, jogados, sem terem atendidas as mínimas necessidades...fico desolada. Mas também sou do tipo que faço...não que eu tenha feito algo grande, mas as pequenas coisas fazem diferença. Procuro nunca esquecer o que disse Buda: "seja você o exemplo que deseja para o mundo". Perfeito! Então vamos à luta, cada um de acordo com as suas possibilidades. Mas e o resto do mundo? Bom, cada um só pode responder por si mesmo não é? Para reclamar, tem que antes pensar no que tem feito de melhor, para si e para o outro. Não adianta fazer como tantas pessoas que cruzam os braços e apontam o dedo em riste a todos os "errados", mas afinal, quem somos para julgar o próximo? O que sabemos dele para dizer se está certo ou não?

Esta vida é tão breve, cada um tem um tempo diferente aqui, não vamos ficar então esperando que a felicidade caia do céu, que ela apareça em momentos grandiosos que nunca chegam...a felicidade não é um ato, mas um ensaio, onde cada pequena coisa, cada pequena observação, cada pequeno gesto pode ser maravilhoso, ou inexpressivo, vai depender da importância que damos a ele.

Eu mesma, como disse antes, sou feliz no ônibus...sério...é só ligar o player, relaxar e pronto...pode demorar uma hora pra chegar em casa que não me preocupo, eu desligo total do mundo e dos problemas...me concentro na música, que é minha passagem secreta...e a sua qual é? Que tal procurar? Deve ser bem mais fácil descobrir o que te faz esquecer da tristeza do que propriamente buscar uma felicidade em cada esquina. No mais, vambora que a vida tá passando.
Questionar: sempre!
Reclamar sem se mexer: é cômodo, e tudo que é cômodo, vicia!!
Namaskar.

Rashmi.




Sobre a honestidade


Belo belo este poema, uma reflexão da Cleide Canton com o final (entre aspas) retirado de um discuro do Rui Barbosa...ai, ai...sobre honestidade, assunto tão abandonado...


Sinto Vergonha de Mim

Sinto vergonha de mim
Por ter sido educadora de parte desse povo,
Por ter batalhado sempre pela justiça,
Por compactuar com a honestidade,
Por primar pela verdade
E por ver este povo já chamado varonil
Enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
Por ter feito parte de uma era
Que lutou pela democracia,
Pela liberdade de ser
E ter que entregar aos meus filhos,
Simples e abominavelmente
A derrota das virtudes pelos vícios,
A ausência da sensatez
No julgamento da verdade,
A negligência com a família ,
Célula-mater da sociedade,
A demasiada preocupação
Com o "eu" feliz a qualquer custo,
Buscando a tal felicidade
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim,
Pela passividade em ouvir,
Sem despejar meu verbo,
A tantas desculpas ditadas
Pelo orgulho e vaidade
Para reconhecer um erro cometido
A tantos floreios para justificar
Atos criminosos
A tanta relutância
Em esquecer a antiga posição
De sempre "contestar",
Voltar atrás
E mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
Pois faço parte de um povo
Que não reconheço, enveredando por caminhos
Que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
Da minha falta de garra,
Das minhas desilusões
E do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
Pois amo este meu chão,
Vibro ao ouvir meu hino
E jamais usei a minha Bandeira
Para enxugar o meu suor
Ou enrolar meu corpo
Na pecaminosa manifestação
De nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
Tenho tanta pena de ti,
Povo brasileiro.

"De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça,
De tanto ver agigantarem-se os poderes
Nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
A ter vergonha de ser honesto".


O poema foi retirado da página do programa Sr. Brasil (maravilhoso) que vai ao ar todos os domingos às 11h na TVE RS, o endereço eletrônico é www.tvcultura.com.br/srbrasil, e ainda no site da autora http://www.paginapoeticadecleidecanton.com/vale mesmo a pena conferir.
A foto é da Eliane Heuser (Vale do Caí -trilhas germânicas) no site http://www.cameraviajante.com.br/

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os Homens Ocos - T.S.Eliot


Estava a fim de dividir mais um poema lindo e tão dado a reflexões como esse, com todos os passantes. Espero que sirva para que pensem a vida e a morte, com seu vazio e possibilidades, com os medos, as perdas, a incompreensão diante do mundo cheio de mitos e aparências, a percepção da mediocridade nas relações humanas, a falta de ânimo para lutar, a impotência diante dos problemas, os conflitos entre real e imaginário, sonho e construção da realidade distorcida...enfim, dá pano pra manga...belo, belo.


T.S.Eliot - "A penny for the Old Guy" (Um pêni para o Velho Guy; tradução: Ivan Junqueira)


Os homens ocos


Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada


Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;


Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.


II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.


Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo


- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular


III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.


E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.


IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos


Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio


Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.


V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada


Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino


Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa


Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o


Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(Fotografia de Hugo Scott)