Matisse - Lady on the terrace (1906)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O valor das coisas

Sempre que compramos algo aqui em casa, independente de para quem tenha sido eu agradeço a Deus. Não por apego, não por achar que ‘ter’ é demasiado importante, mas por dar valor às coisas. Costumamos dar bronca nas crianças para que cuidem os brinquedos, as roupas, o material da escola, etc, embora seja muito importante criança se sujar e estragar alguns objetos porque faz parte do aprendizado, do processo difícil que é o crescer, mas é diferente.


Desde pequeno, o João rola na terra, na grama, toma banho no tanque, na piscina (de plástico é claro)ou banho de mangueira, ele mais um monte de cacarecos, que sempre acabam por estragar, mofar e tal...mas isso é bacana, é o dito destruir para construir. Ele sempre montou mega coisas com pedaços de outros brinquedos quebrados e sempre foi muito incrível! Mas se eu o vejo chutar, pisar ou jogar longe determinado brinquedo (e criança adora fazer isso até certa idade), aí eu paro tudo e dou sermão. Hoje com 6 anos ele já está mais tranqüilo, pede ajuda para guardar, se magoa quando perde algo que é impossível consertar e do qual ele gostava muito, acha importante pôr o nome nos materiais escolares e guarda tudo com carinho – NÃO apego. A Tatá sempre que chega da rua põe o tênis na sacada pra pegar sol, abre a roupa na janela pra não ficar úmida antes de deixá-la no cesto pra lavar, porque pode criar mofo mesmo...tem os mesmos brinquedos há anos e em bom estado, prontos pra serem doados a outras crianças quando ela não os quiser mais. Isso faz parte do que considero educação. O mundo não terá matéria prima ‘Ad Eternum’, as coisas estão se esgotando.


Quanto mais compramos, mais desperdiçamos petróleo, energia, tecido (as empresas têxteis estão no topo da lista de poluidoras, salvo aquelas que filtram seus resíduos), aditivo químicos (estão em absolutamente tudo), água pura, árvores inteiras, animais inocentes (carne, couro, pele, penas, almíscar, corantes...) mais água pura, metais pesados, água pura, carvão, pedras ou terra (causa de muito desmoronamento), e mais água, que já não está mais tão pura assim. Existe uma enorme cadeia produtiva por trás de cada caneta que utilizamos, e se continuarmos a comprar por esporte, sem a real necessidade, essa história vai chegar a um limite logo logo, onde não haverá mais história! Acabei ganhando a fama de ser aquela que não gosta de ninguém mexendo, quem dirá estragando o que é meu, no entanto aqui em casa tudo que é meu é meio público, todo mundo pega e mexe mesmo, mas se extraviam eu brigo, aí não teve jeito, virou lenda. Por conta disso passei muito tempo, como boa yoguin, refletindo a respeito, me perguntando se eu era realmente mesquinha, apegada às coisas materiais e não entendia bulhufas, porque isso não fazia sentido, porque não tinha nada a ver com o que eu acreditava. Ainda bem que a vida muda e a gente muda junto com ela, foi quando me toquei que meus cuidados tinham a ver com a crença de que ‘tudo que vem fácil, vai fácil’! Quem não tem dinheiro sobrando acostuma a gastar o necessário, sem esbanjar com bobagens ou desejos superficiais. Digamos que aprendi com a falta, que tudo que se tem deve ser valorizado, NÃO endeusado, nem cultuado, por que quando partirmos desta vida para nossa verdadeira casa, o objeto vai ficar sim ou sim, tudo que é material fica aqui no plano material. Comprar demais a ponto de esquecer o que comprou, seja roupa, ou o calçado usado uma só vez, ou a comida que estraga na geladeira, gera descontrole financeiro, ecológico e principalmente emocional, porque pode virar vício. A pessoa só se sente feliz na hora da compra, eufórica e descontrolada, até o outro dia chegar e ela perceber que já não faz mais a menor diferença. Quantos conhecidos, parentes ou amigos cada um de nós tem com esse comportamento? Vários, mas como não nos cabe julgar, cada um com seu cada qual! Tem um provérbio Chinês maravilhoso que eu adoro lembrar: “antes de começar o trabalho de modificar o mundo, dê três voltas dentro da sua casa.”


Então, pensando no que cada um pode e deve fazer por si mesmo: o que não serve mais, doe; se vai comprar, que seja realmente necessário e útil; a comida de ontem pode ser a torta de amanhã; ensine seus filhos a cuidar de seus pertences e assim, eles aprenderão a cuidar do mundo. Dar o devido valor às coisas, agradecer a Deus pelas conquistas, tirando o nosso mérito da ação e dando a Ele como entrega, como prova de fé, é educado, e ser educado é chiquérrimo, embora o chique tenha adquirido outra conotação para os ‘normais’ nestes tempos tão malucos que vivemos. Vejo jovens destruindo praças, acabando com objetos de uso coletivo e seus pais não se manifestam. Provavelmente esses pais nunca conversaram sobre o valor das coisas, sobre nenhum valor! Apego prende, escraviza! Quem compra demais, ainda que não cuide, nem percebe que é apegado a tudo que tem.


Valorizar é ter bom senso, é ter respeito por todas as pessoas e por si mesmo, afinal, quem quer trabalhar o mês inteiro para desperdiçar o dinheiro que ganhou com sacrifício em futilidades que o mercado te empurra como sendo de vital importância? Valorizar sem posse pode parecer difícil, mas deve ser um hábito praticado diariamente: “isto não me pertence de verdade, mas enquanto eu estiver aqui tentarei preservar este bem, que só adquiri por ser necessário, para não ter de comprar outro.” No final, tudo que fica aqui desta vida são os hábitos, então vamos escolher os bons e saudáveis, como a prece, a verdade, o respeito e a prática do consumo consciente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá! Obrigada por frequentar este Mafuá, mas peço-lhe, caso pretenda copiar algum texto ou imagem, por favor faça a devida referência. Namaskar!!