Matisse - Lady on the terrace (1906)

quarta-feira, 9 de março de 2011

A devastadora solidão de se viver em grupo.

Ora essa, agora não falta mais nada! Para quem ainda tem alguma dúvida de que a sociedade está doente, PARE e LEIA.

Dia destes os jornais noticiaram a patética festa de casamento do filho mais velho da patética família real britânica. Não bastasse isso já ser um absurdo por si só – existir rainha e príncipe no século 21 – ainda tem toda a estória da cerimônia com convite folheado a ouro e blá, blá blá... Imagina! Em um mundo de miseráveis eles deveriam se preocupar em dar o exemplo da elegância sendo ecologicamente corretos e pregando, bem como praticando, o consumo consciente sem desperdício. E eu deveria ganhar o troféu de sonhadora do ano.

Mas não é tudo (parte 1): foram 1.900 convidados só para a igreja. Sim, é isso mesmo, eu não errei o número nem seu óculos deu tilt. A cafonice é algo! Destes 1.900, somente 300 poderão ir à janta/festa dos noivos – ai que vexame! Esbanjam por um lado, são pão duros por outro? Será que é isso? Lamento mas ninguém vai me convencer de que isso é chic, jamais.

Onde já se viu chamar alguém a uma cerimônia, fazer esse alguém gastar com o traje, gastar com o presente para o casal, gastar seu tempo ao sair de casa para ir à igreja e ... voltar para a casa meia hora depois?

Que horror! Se era para se exibir, por favor, fizessem por completo, ou então só chamassem os 300 para tudo oras! Que coisa mais feia.

Mas não é tudo (parte 2): na verdade, a mim nada interessa ficar sabendo disso tudo, quanto mais gastando meu latim com essa baboseira. Eu decidi escrever porque fiquei boquiaberta quando soube, através do mesmo jornal, que uma menina de 19 anos, cuja nacionalidade não me lembro, e francamente nem me importa (parece que é mexicana), estaria há 12 dias em greve de fome, dormindo em uma barraca na frente da embaixada britânica, para ver se convence a família real a dar-lhe um convite para o casamento. Juro por Deus!!! Eu ouvi sim! Agora me digam se não tem cara de piada ou pegadinha do Silvio Santos?

Onde e quando foi que as pessoas se perderam? Ou será que nunca se acharam na nossa ainda curta história aqui na Terra? Onde estarão os pais dela? Muitas perguntas, poucas respostas. Existem muitos exemplos de falta de amor próprio, de baixa auto-estima, auto-sacrifício como forma de pedir ajuda e inclusive desespero por chamar a atenção, que vão desde porres e micos inocentes, até seqüestros, homicídios e suicídios. Existem ainda inúmeras formas de se protestar por causas nobres, importantes e até mesmo essenciais. No entanto, este protesto ou tentativa de chamar a atenção, demonstrando tamanha falta de respeito consigo, em uma greve de fome por um motivo ridículo como a festa do príncipe, é de longe o mais vulgar, tosco e sem propósito que o valha que já tive a infelicidade de presenciar!

Enquanto centenas de pessoas morreram no Egito para libertar o país de um tirano ditador, outras centenas de pessoas morreram na Líbia pelo mesmo motivo, e milhares morrem de fome diariamente na África, na Cidade do México tem uma maluca correndo risco de morte por um raio de cerimônia, um mero ritual que não vai mudar em nada a vida de ninguém. Talvez a dela, para uma cova nem tão rasa, apenas a 7 palmos do chão, e em seguida para o Umbral dos suicidas.

Não sou a favor de nenhuma forma de violência, mas honestamente, morrer lutando contra a ditadura, contra algo que seja urgente, ou para salvar uma vida me parece até poético, digno, ao menos, e provavelmente esteja relacionado a um grande aprendizado para a humanidade que precisa perceber que o diálogo e a liberdade são nossa única salvação. Quanto à menina da greve de fome, não há nobreza alguma em seu gesto, ao contrário, há pobreza de razão. Há ainda, e isso é bastante importante de ser dito e discutido, um desespero que, sem dúvida é estimulado pela mídia, em se fazer presente ou ser parte de tudo, o que é humanamente impossível.

Tudo tem que virar reality show. Nossa vida sem ser notícia parece ter perdido o sentido. Ou estamos na rede ou somos das cavernas. Pertencer ao um grupo é preciso, viver não é preciso. Vale tudo para estarmos ‘antenados’. Tudo, até dar cabo da própria vida contanto que vire febre no you tube. Afinal, o que falta nessas pessoas? Eu arrisco dizer que falta desejo por si mesmas, vontade de se conhecer, sonhos reais e alcançáveis, paixão pela vida, busca por realização espiritual, muita bagagem político-social, isso só para começar.

Estas últimas gerações são de longe as mais despolitizadas e alienadas de que se tem notícia. Outro dia li um livro que falava justamente sobre isso, coisa que eu digo e repito há anos. Vivem apenas para satisfazer suas próprias necessidades. O outro? Quem? Nem sabem do que se trata. Inteligência emocional, resiliência, autoconfiança e paciência são somente palavras cujo significado muitos desconhecem. E se desconhecem a razão da própria vida, qual o sentido de estarem aqui? Nenhum, apenas consumir tudo, incluindo as outras pessoas, uma vez que tudo tem que ser para ontem, na velocidade de um clic. O casamento do príncipe nada mais é que a desculpa neste momento. Em outra ocasião surgirão novas idéias de auto-punição, humilhação e degradação pública. E onde ou quando vai parar? Também adoraria saber. Que esperança! Tem tanta coisa para fazer em tão pouco tempo antes que tantas vidas se percam de forma estúpida. E a caminhada é tão longa...
Imagem: Gerson Turelly

Um comentário:

  1. Bom dia Rashmi!
    Ainda antes que me movimente mais neste dia (agora ensolarado) por aqui, faço questão de deixar claro: ao ler tua postagem de hoje, fiquei curiosa, depois ri, depois me emocionei e fiquei indignada também. E queria te dizer que é isso que o Mafuá tem me dado... um estar no mundo, uma vitalidade importante e necessária! Uma claridade à parte em tempos nublados. Eu te agradeço por isso e aproveito pra agradecer o comentário lá no rejaneando e a indicação dele por aqui. Estar aqui contigo, é uma felicidade pra mim.

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